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Jogo impresso: conseguiram fazer Doom rodar em uma impressora térmica

Clássico de 1993 vira sequência de quadros em bobina térmica; entenda o experimento do youtuber e descubra como esse “console” inusitado funciona.

Jogo impresso: conseguiram fazer Doom rodar em uma impressora térmica
Créditos: Reprodução/Bringus Studios

O clássico Doom, de 1993, acaba de conquistar mais um dispositivo improvável: uma impressora térmica de recibo.

O feito é do youtuber Jon Bringus, do canal Bringus Studios, que transformou um equipamento corporativo da Epson em uma espécie de “console analógico”, imprimindo frame a frame do jogo em rolos de papel, com direito a lag de vários segundos e uma pilha considerável de bobinas gastas.

Hardware improvável vira máquina de jogo

A estrela do projeto é uma impressora de recibos Epson com computador embutido, modelo M287D, pensada originalmente para pequenos negócios e restaurantes.

Divulgação/Epson

Em vez de depender de um PC externo, o equipamento traz na base um conjunto completo de hardware:

  • Processador Intel Atom N2800 de 1,86 GHz
  • 4 GB de memória DDR3
  • HD de 500 GB da Western Digital
  • Windows 7 Embedded / Professional como sistema principal

Ao abrir o chassi, Bringus encontra praticamente um PC compacto escondido sob o mecanismo de impressão: placa-mãe dedicada, porta SATA sobrando, slot de memória único “denso” e conectores internos USB que ligam o módulo de PC ao miolo da impressora.

Reprodução/Bringus Studios

A parte de alimentação é outro desafio. O conjunto exige 24 V com corrente robusta, o que obriga o criador a testar fontes diferentes, dividir alimentação entre computador e impressora e até improvisar conectores para manter tudo estável enquanto imprime e roda jogos.

A maratona de sistemas e drivers até tudo funcionar

Ter um PC dentro da impressora não significa que ele esteja pronto para jogar. De fábrica, o sistema vinha com Windows 7 Embedded praticamente limpo, sem softwares extras.

Bringus começa pelo básico: testar o boot, entrar na BIOS, ajustar uso de memória gráfica integrada e explorar opções de throttling térmico que chegam a permitir ventoinha só a 900 °C, em tom bem-humorado.

Na sequência, ele tenta transformar o aparelho em um “Linux box” minimalista. A primeira parada é o Lubuntu, depois distribuições como Debian e até Fedora. Aí surge o grande obstáculo: o hardware usa um Intel Atom Cedarview com GPU GMA 3600 / PowerVR, conhecida pela falta de drivers decentes fora do Windows 7 32 bits.

  • O processador é 64 bits,
  • Mas o firmware traz um UEFI 32 bits,
  • E a GPU depende de um pacote de driver preso a versões específicas do sistema.

Para contornar o gargalo, o youtuber recorre a uma solução de comunidade, o projeto Linuxium, que adapta ISOs de Linux para CPUs 64 bits com UEFI 32 bits. Mesmo assim, o suporte gráfico fica extremamente limitado e sem aceleração 3D verdadeira.

Reprodução/Bringus Studios

Jogos como Half-Life chegam a rodar, porém em situações extremas, com taxas de quadro que oscilam entre frames positivos e “frames negativos”, praticamente em câmera lenta.

A tentativa seguinte é ainda mais radical: Bringus faz o dump da BIOS, usa um gravador externo e conta com a ajuda de um desenvolvedor para habilitar suporte completo a 64 bits, em busca de mais liberdade de sistema e RAM.

O experimento até permite instalar sistemas de 64 bits, mas esbarra na parte mais sensível: o driver gráfico proprietário.

Pacotes oficiais para Windows 7 32 bits e um driver de Windows Vista 64 bits resgatado via archive.org não cooperam e recusam instalação em versões mais recentes ou diferentes, obrigando o criador a voltar ao ponto de partida.

Reprodução/Bringus Studios

Na prática, o único cenário em que a GPU opera com aceleração de vídeo é em Windows 7 Professional 32 bits, com o driver legado da Intel corretamente instalado. É esse ambiente que serve de base para o projeto da “gameplay impressa”.

Do monitor à bobina: o software que transforma vídeo em recibos

Com o problema de sistema resolvido, vem a parte mais criativa: converter a saída de vídeo em algo que uma impressora térmica consiga desenhar, quadro a quadro.

Bringus então desenvolve um programa próprio que captura a imagem da tela, processa e envia em tempo real para a Epson, com várias opções de ajuste:

  • seleção da impressora que vai receber o “spam” de imagens
  • configuração do FPS de impressão, já que cada quadro depende de um ciclo físico de aquecimento do cabeçote
  • controles finos de brilho e contraste
  • algoritmo de dithering, que substitui tons de cinza por padrões de pontos pretos e brancos adequados ao papel térmico

Como o mecanismo aquece sempre que imprime áreas escuras, cenas cheias de sombras e fundos negros levam a impressora ao limite. Se a imagem for muito escura, o cabeçote esquenta demais, o firmware aciona uma proteção e interrompe a impressão, acumulando dezenas de quadros na fila de tarefas.

Em testes extremos, a máquina chega a imprimir quase tela inteira em preto, gerando um barulho agudo característico que funciona, na prática, como um “termômetro sonoro” do estresse do sistema.

Reprodução/Bringus Studios

Em um dos trechos mais curiosos do vídeo, o criador resume a sensação ao dizer que a impressora grita com um tom mais agudo quanto mais perto está do superaquecimento, enquanto ele ajusta brilho e contraste para manter o fluxo de quadros sem colocar o hardware em risco.

Para segurar a temperatura, Bringus instala até um ventilador de servidor voltado diretamente para a abertura frontal da impressora, resfriando o miolo enquanto os frames de jogos são despejados em alta frequência no rolo de papel.

Doom em câmera lenta e quilômetros de papel

Com o pipeline montado, chega o momento mais esperado: rodar Doom na impressora térmica. O jogo é configurado em software renderer, com resoluções baixas, e o programa de captura começa a enviar as telas para o equipamento.

Reprodução/Bringus Studios

Cada movimento, tiro ou abertura de porta vira uma sequência de quadros impressos, formando uma espécie de “filme” linear em bobina.

O processo, porém, tem um custo:

  • O lag fica em torno de 4 segundos entre a ação no PC e a imagem que aparece no papel.
  • A pilha de bobinas cresce rapidamente, em trechos com muitos inimigos e explosões.
  • Qualquer tentativa de reação rápida é inútil, porque quando o jogador enxerga o que aconteceu já está vários frames atrasado.

Ainda assim, os registros físicos impressionam. Trechos de interface, inimigos e cenários surgem em alto contraste, lembrando as impressões do antigo Game Boy Printer, só que na proporção de um rolo de recibo de supermercado.

Em alguns momentos, o rolo vira quase um storyboard contínuo do jogo, com uma estética que mistura pixel art, ruído digital e textura de papel térmico.

Half-Life, Portal e outros testes no “console de recibo”

Doom não é o único título a passar pelo experimento. Antes de focar na impressora, Bringus brinca com o desempenho do PC embutido em jogos como Half-Life, Half-Life 2, versões alternativas de Team Fortress 2 e até Portal 2 / CS2 em instalações cheias de gambiarras, com menus em russo e configurações gráficas no limite.

Quando leva essa experiência para o papel, os trechos de Half-Life 2 em especial rendem impressões muito fotogênicas. Corredores, avisos de “no smoking” e cenas icônicas do laboratório de Black Mesa aparecem em tiras longas, que o criador admite querer emoldurar dada a estética curiosa das imagens.

Reprodução/Bringus Studios

A experiência de jogo, por outro lado, é quase impraticável. Em muitos momentos, o papel começa a ser sugado pelo ventilador frontal, a fila de impressão sai de ordem e o que aparece na bobina mistura passado, presente e frames descartados.

Ao invés de interatividade, o projeto se aproxima mais de uma instalação artística em que o videogame se revela como uma sequência documental de quadros impressos.

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Uma “prova de fogo” para Doom e para a preservação digital

Mais do que acrescentar outro item à lista de “coisas que rodam Doom”, o projeto de Jon Bringus vira um comentário prático sobre criatividade, limitação de hardware e preservação de tecnologia.

A necessidade de resgatar drivers antigos via archive.org, lidar com BIOS bloqueada, contornar UEFI de 32 bits em CPU 64 bits e driblar GPUs licenciadas com suporte restrito mostra como, em muitos casos, o maior inimigo do hardware não é a potência, e sim o software que deixa de existir oficialmente ao longo dos anos.

Ao transformar uma impressora térmica em tela improvisada, o youtuber também chama atenção para a materialidade do jogo. O que normalmente fica preso a pixels e monitores vira papel físico, com textura, cheiro e até resíduos de calor. Ao custo de montanhas de bobina, Doom, Half-Life e outros títulos deixam de ser só código executado e passam a ser, literalmente, histórias impressas.

Num cenário em que Doom já apareceu em calculadoras, geladeiras, testes de captcha e todo tipo de gadget, ver o jogo ganhar vida em uma impressora térmica mostra que a cultura do “rodar em qualquer coisa” está menos ligada à praticidade e mais a um tipo de brincadeira experimental com a própria tecnologia.

O projeto de Bringus não transforma a Epson em um console viável, mas confirma algo importante: a cada hack desse tipo, a gente ganha um novo jeito de olhar para hardware velho e perguntar o que mais ele ainda pode fazer.

Fonte: Bringus Studios

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