
O ex-CEO da Intel, Pat Gelsinger, agitou o debate sobre o futuro da tecnologia ao afirmar que um avanço significativo em computação quântica pode ser suficiente para estourar a bolha atual da inteligência artificial.
Em entrevista ao Financial Times, ele sugeriu que essa virada pode ocorrer mais cedo do que o esperado e que o domínio das GPUs, essenciais para treinar modelos gigantes, estaria com os dias contados.

A aposta de Gelsinger em uma “trindade” da computação
Gelsinger descreveu a computação quântica como parte de uma espécie de “trindade do processamento moderno”, formada por sistemas clássicos, inteligência artificial e arquiteturas quânticas.
Segundo ele, essa combinação definirá o futuro da indústria. O que chamou atenção foi o prazo que ele projeta: enquanto figuras como Jensen Huang, CEO da NVIDIA, falam em duas décadas para a tecnologia alcançar maturidade, Gelsinger fala em dois anos.
Para o ex-CEO, essa aceleração seria suficiente para alterar o eixo da indústria. Caso máquinas quânticas ganhem aplicações de larga escala, as GPUs atuais, que movem boa parte da infraestrutura global de IA, começariam a ser substituídas até o fim desta década.
A leitura sobre Microsoft e OpenAI
A entrevista também abordou o cenário competitivo em IA. Gelsinger comparou a relação entre Microsoft e OpenAI com a estratégia adotada por Bill Gates nos anos 1990.
À época, a Microsoft cresceu com base em parcerias de distribuição com a IBM. Para ele, algo semelhante acontece hoje: a OpenAI atuaria como porta de entrada, enquanto a Microsoft mantém o controle da operação por meio de infraestrutura e escala computacional.
Essa análise vai de encontro ao argumento de que a corrida de IA está diretamente conectada ao domínio de hardware. Na visão de Gelsinger, um salto quântico pode quebrar essa lógica e redistribuir o peso das empresas tradicionais que hoje respondem pela fabricação e uso de GPUs.
Os bastidores da Intel e a crise de execução
Além das previsões, Gelsinger falou sobre sua passagem recente pela Intel e sobre o estado em que encontrou a empresa ao reassumir o cargo. Ele afirmou que havia um ambiente de desorganização profunda, marcado por atrasos constantes, perda de eficiência e dificuldades internas para entregar produtos estratégicos.
Segundo ele, nenhum produto havia sido lançado no prazo nos cinco anos anteriores à sua volta, e a empresa parecia ter perdido processos básicos de engenharia.

O caso mais simbólico é o da tecnologia Intel 18A, projetada para recolocar a companhia no nível da TSMC em capacidade fabril. Gelsinger havia prometido que o projeto seria concluído em cinco anos, mas foi demitido antes de chegar ao prazo. Seu sucessor, Lip-Bu Tan, encerrou oficialmente o 18A dentro da mesma janela.
Durante a entrevista, ele sintetiza a frustração:
Parecia que a empresa tinha desaprendido a engenhar produtos
Pat Gelsinger, ex-CEO da Intel
A imersão em computação quântica no Playground Global
Depois de deixar a Intel, Gelsinger passou a integrar o fundo Playground Global, que investe em startups de deep tech. Esse contato direto com pesquisas de hardware avançado teria sido o gatilho para sua convicção de que os sistemas quânticos são capazes de tornar obsoletas tanto arquiteturas clássicas quanto chips de IA.
A familiaridade com projetos experimentais também moldou sua visão de que a bolha de IA tende a continuar por mais alguns anos, impulsionada pelo interesse de mercado e pelos altos custos de treinamento.
Para ele, o ponto de ruptura viria no momento em que qubits começarem a resolver problemas fora do alcance dos chips atuais, criando um deslocamento inevitável na indústria.

O que suas previsões revelam sobre os próximos ciclos de tecnologia
As declarações de Gelsinger evidenciam uma disputa narrativa importante: enquanto algumas empresas defendem que as GPUs ainda têm espaço para evoluir, outras enxergam a computação quântica como o próximo salto estrutural.
A própria NVIDIA tem respondido a esse tipo de especulação afirmando que sua plataforma mantém vantagem em desempenho e flexibilidade sobre chips especializados, como os TPUs do Google.
Independentemente de quem esteja certo, o debate aponta para algo maior: o setor de hardware está entrando em uma fase em que velhas certezas deixam de ser estáveis.
O avanço de IA, o custo crescente dos modelos e as limitações energéticas criam um ambiente em que novas arquiteturas ganham espaço com mais facilidade.
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Horizonte que pode redefinir o próprio conceito de computação
As previsões de Pat Gelsinger podem parecer ousadas, mas carregam um ponto relevante. Se a computação quântica realmente chegar ao nível que ele prevê, a disputa não será apenas técnica, e sim estratégica. Modelos de negócio, parcerias, cadeias de suprimentos e prioridades de pesquisa podem mudar de direção em questão de poucos anos.
A possibilidade abre espaço para uma reflexão maior: a computação está entrando em um período em que rupturas deixam de ser exceção e começam a fazer parte do planejamento das próprias empresas. E, se esse cenário se confirmar, a bolha da IA pode não estourar por saturação, mas por substituição.
Fonte: Financial Times
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